iPhone na Venezuela custando R$ 147 mil? Não exatamente

Nos últimos dias a imprensa vem mostrando algumas curiosidade da crise na Venezuela, como do iPhone e outros smartphones custando R$ 147 mil ou quase US$ 50 mil. Isso seria verdade? Sim e não. Entenda o motivo dessa bizarrice.

(nano) resumo do caos venezuelano


A Venezuela nunca foi estável. Em todo sua história o país foi palco de Golpes de Estado atrás de Golpe de Estado e crises econômicas e sociais profundas. Quando não era comandado por militares corruptos, sanguinários e incompetentes, o país era comandado por uma oligarquia sem opositores e curtos períodos democráticos (apenas dois partidos revesam o poder e um dava cargos para o outro no governo). Isso tudo com uma das maiores reservas de petróleo do mundo, maior do que da Arábia Saudita.

Se tudo sempre esteve ruim, após a morte de Hugo Chávez a coisa ficou pior. Os resultados de uma política econômica, ou melhor, os resultados da falta de uma política econômica dentro do mundo real e a falta de planejamento de longo prazo em todos os segmentos de tudo no país repercutiram como trombetas do apocalipse na Venezuela em um dos piores momentos da economia mundial.

Além da pior crise financeira desde 1929, que quebrou uma perna de praticamente todos os países do mundo, a Venezuela teve outra perna quebrada por conta da queda violenta do preço do barril de petróleo. Em um país cujo petróleo soma 95% das exportações e que nunca contou com um plano de investimentos em infraestrutura (a China, por exemplo, fez muito bem o dever de casa) e produção, isso bastou para quebrar a Venezuela de vez.




Entenda o problema do dólar na Venezuela


Com a crise financeira, com a crise do petróleo, com a falta de segurança jurídica, a praticamente inexistência de produção de bens de consumo local e a inflação anual que pode chegar na casa dos 3 dígitos, o dólar disparou por conta da busca dos venezuelanos por segurança monetária. Quem recebe tenta a todo custo comprar dólares.

Por conta disso, em 2003 o governo tentou limitar a compra de dólares. E o que acontece quando um governo tenta limitar algo? Forma o mercado negro. Na Venezuela há o câmbio oficial, controlado pelo Estado, e o câmbio paralelo, controlado pelas leis de mercado de oferta e demanda.

Como a oferta é baixa e a demanda é alta, o dólar paralelo no país está altíssimo. Enquanto no câmbio oficial para importação de mercadorias US$ 1 (dólar estadunidense) vale Bs.F 6 (bolívares fortes) para produtos essenciais e Bs.F 12 para produtos não essenciais, no mercado paralelo US$ 1 vale Bs.F 470*.

iPhone não custa R$ 147 mil ou US$ 50 mil


Não fazia sentido pagar mais do que um imóvel em um smatphone. Quem em uma crise faria isso? É difícil entender o por que a imprensa não desconfiou que algo estava estranho. Falta papel higiênico, comida e até água mas os venezuelanos preferem gastar todos suas economias em um iPhone?

Por conta do câmbio paralelo a da falta de mercadorias nas prateleiras, o câmbio oficial é um conto de fadas. Os venezuelanos usam o câmbio paralelo para fazer negócios com importadores, comprando iPhone e outros smartphones. Os preços anunciados no Mercado Libre e ou em qualquer loja que traz mercadorias do exterior serão baseados no câmbio real, de mercado, no do mercado paralelo e não no oficial controlado pelo Estado.

Portanto, um iPhone 6 64 GB que custa Bs.F 461 mil custa na verdade US$ 980 ou um pouco mais de R$ 3 mil. E o mistério foi resolvido.




---
(*) Cotação de 24/06/2015 por DolarToday.

0 comentários: